Tempo da Alma
Quando demora demais. Já faz muito tempo.
É o que muitas pessoas dizem quando iniciam a Psicoterapia. Faz tempo que terminou o relacionamento, que perdeu alguém, que sentiu a ruptura. Tempo suficiente, acreditam, para já “ter superado”. E ainda assim, doem.
Mas… muito tempo segundo quem?
Na tentativa de medir o que não se mede, criamos expectativas sobre o que seria um tempo “razoável” para sofrer, elaborar, recomeçar. E quando não conseguimos seguir esse cronograma imagético, o sofrimento ganha também a face da culpa: por ainda estar triste, por ainda não ter dado conta, por ainda precisar de ajuda.
Ocorre que o tempo do mundo e o tempo da alma nem sempre caminham no mesmo compasso. O calendário não serve para datar as experiências do vivido. A dor não é pontual. O luto não é uma linha reta. E a escuta não pode ser apressada.
Retornar à experiência em si, não ao que achamos que já devíamos ter superado. Pois o que se apresenta é um tempo espesso, pesado, que se arrasta. Um tempo que não “passa” como gostaríamos, mas que nos atravessa.
Nesse tempo denso, algo se preserva. É um ainda estar ali, tentando nomear o que doeu, tentando encontrar outro modo de se sustentar no mundo.
A clínica não se apressa porque a escuta não se faz em velocidade. A vida, quando é vida mesmo, exige hesitação.
Há processos que pedem meses, outros anos. Não porque sejam lentos, mas porque são verdadeiros. E o verdadeiro não tem pressa. O tempo do tempo é o tempo do tempo.
Por isso, não se trata de “sair logo disso”, mas de atravessar com inteireza.
E talvez a pergunta mais honesta diante do sofrimento não seja “quanto tempo vai durar?”, mas:
Como posso escutar o que ainda insiste em permanecer?
