Querida Dona Morte,
por muito tempo fingi sua inexistência. Como se ignorá-la pudesse impedir sua chegada. Mas às vezes, como quem pede passagem, você resolve aparecer de mansinho. Noutras, chega devastando todo o meu quintal, arrancando cada broto de ramo e levando até a camada fina de terra adubada, que demorei tanto para nutrir.
Então, minhas certezas desmoronam, as formas mudam e os sentidos escapam. E eu me vejo ali, tentando salvar ruínas com as próprias mãos…como é difícil deixar partir! Como é difícil aceitar a despedida do que, um dia, me sustentou.
Há algo em mim que endurece diante do que se vai. Algo que insiste em manter intacto, límpido, organizado, polido, esterilizado, harmonizado, ajustado, alinhado e imaculado, mesmo quando já não há vida ali, mas que continue onde está.
Você me assusta. Você esgarça, devora, rompe, rasga, explode, desorganiza, arranca, corrói, desmorona, desmonta, invade, sufoca, desorienta, dilacera, dissolve, apaga e embaralha. Você me despe, arranca todos os tecidos que me demorei a tecer. E a minha pele crua grita ao arrepio da carne aos ossos.
Você é assustadora. Você é assustadoramente sedutora. Talvez porque tocar na sua existência seja tocar também na fragilidade de tudo o que amo, de tudo o que sou e de tudo aquilo que ainda acredito.
Mas existe algo estranhamente vivo em sua passagem. Porque depois da ruína, algo respira diferente. A pele já não toca o mundo da mesma forma. Os olhos já não enxergam com as mesmas lentes.
Talvez não seja a vida que peça coragem. Mas a morte, que às duras penas sussurra sem previsões do tempo. No final das contas, meu equívoco foi chamar de fim aquilo que em você sempre foi início.
